terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ferido na corda

Teus olhos de lago
São fios de lâmina
Trespassam o meu ser
Com frieza metal
Tuas lágrimas, doem
Ácidas, e corroem
O que sinto e sou
Matam o que desabrochou

Palavras de adeus
O olhar, distante
Cortam-me a vida
Como horrendo diamante.


(Charneca de Caparica, 2009)

domingo, 18 de outubro de 2009

Conversas não

No verde plano, envolto e só,
Observo a montanha, que acolá
Se ergue, alva e imensa,
E vejo a tua face, branca,
Mas não é a tua face, doce.
E olho para os teus olhos, verdes,
Mas não sinto o teu olhar, em mim.
E contemplo o teu peito, nu,
Mas vislumbro as tuas costas.
E miro os teus joelhos,
Mas são os teus calcanhares
Que lentamente te afastam...
...de mim.

Marejam-se-me os olhos de
Gravíticas gotas salgadas.
Ao explodirem no chão, verde,
...sempre verde.

Ouço o ribombar da tua voz:
"Não estou para conversas! Não!!"
O eco ressoa no plano,
O eco ressoa um ano.

E a montanha que eu via, acolá,
Ainda lá está… mas não está para mim.


(Lisboa, 2009)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Árvore sem folhagem, ouve o meu pedido,
De longo restolho fendido,
Imploro a tua sinceridade...

Humilde,

rastejo,

Na sublime sinceridade,
De um sobrolho de um velho
Face à candida, cruel, verdade.

Peço
o Mar sem anéis da lástima dourada,
Peço
o Ângulo sem papéis, sem a púdica amizade

Peço
o Grânulo de mim em calmarias desperto

Quero o sonho de, por fim, ter Ângulo e ter Mar... e que não me cravem unhas no peito aberto.



(Boston, 2004)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Devaneio rubro

Gáudio de vista
É o lembrar-te, Lira,
Trinando minh’alma
Em redemoinhos de mel

Orgiástica ventura
Libertária, suprema,
Tua mão, minha pena
Oh ausência dura e cruel

Suposição de loucura
Granada que, por amor,
Explode em águas profundas
No abismo frio e escuro
Onde monstros sanguinários
Vivem, sofrem, doem,
Morrem...
Sob os cascos fendidos das Fúrias
Sob as derrocadas, longas e despojadas,
De personas lúgubres e mirradas.

A altitude enjoa, agora.
Oh Corpo de Gigante Irado
Enebriado de sal e gemas
Jóias de luz esperançada,
Cor, símbolo de vida
Chaga de inconsciências aveludadas.
Oh, Vôo de ave cega e desdenhada.

(Lisboa, 2004)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

?Original

“Chove lá fora”
Como início de poema
Nada tem de original
Começando p’lo tema
Nada neste colabora
Para uma arte desigual

“São anjos que choram”
Assim o poeta diria
Eu, jamais fui tal
Lágrimas de maresia
Na minha face rolam
E a chuva não tem sal

“Anjos alvos que agora”
Anjo, conheço uma
É demónio por igual
Lembro-a na doce bruma
Onde mia paixão mora
Céu, inferno pessoal

“No meu coração moram”
Nada mais tem guarida
Que o meu sangue vital
Memórias tuas, querida
Belas, gloriosas, decoram
Todo o meu córtex cerebral


(Boston, 2001)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Contemplativo desespero

Estou só
Solto
Etéreo por sobre mim
Contemplo-me pesaroso

Contemplo-o

Liberto
Imaterial
Componho a massa lenta
De uma emergente empatia

Por ele... por mim

A Dor
Partilho
Ele revê-se na não-dor
Esta reprime com pudor

Vazio

Amorfa
Pesada
É esta empatia p’lo desespero
Emudecido, mas presente

Sinto-o

De fora
De mim
Revejo labirintos de
Mentira, de rubro sangue

Derramado

Tão só
Tão sua
Que lágrimas apenas escorrem
Na íntima face de dentro

Da alma


(Boston, 2002)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A minha dor

Lágrimas inconstantes
Humedecem a neblina
Que, como uma mão extremosa,
Afaga as lápides com os
Gélidos dedos da ausência
De Amor...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

?

Porque me sabes a maresia nocturna?
Acreditas no mistério?
Sentes os orgãos do amor em sinfonia?

A respostas não me submeto, pois a longa espera foi desabrochando em camadas, pétalas de néctares e manás (não mais serei o ontem ou o amanhã); vi o sol quebrado em mil pardais, chilreantes e travessos... levei o sonho ao fim do sal, em bandeiras abotoadas ao meu longo cabelo gutural.


(Caparica, 2005)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Hedonista, percorro
Os vales e campos do teu
Olhar
Alago-me em torrentes
Do teu doce e longo
Néctar,
Envolto na tua alva e quente
Paixão.
Do topo do monte Êxtase
Sobreponho a sinceridade
Da luz e cor de Nós
Num toque sem fronteiras,
Num mar sem barreiras,
No mais louco sonho... voar!

(Caparica, 2004)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O longe, agreste, sereno
Mar
A dor, celeste, amena
Voar
Morrer sem...
Ser, alguém,
sonhar...
Engano puro de paixão; que vida tudo permite?

Organizando o nada.............


(Carcavelos, 1999)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Lembrai os choupos azuis,
Orando ao vento.
Recordai os cavalos
Trotando orgulhosos
Sobre o mar bravio.
Sentí as carícias veladas
De uma brisa de estio
Libertai pombas de dor
Da superfície nua
Libertai-as por amor
E a arte será tua.

(Carcavelos, 2000)

sábado, 8 de agosto de 2009

Mãos

Fixo-as apenas
Não as metaforizo, não as canto
Não me perco em vãos poemas,
Em longos e tediosos temas,
Em colunas de alabastro
De sonho mármore cravadas,
Descobertas ou pintadas
Longas como cordas ancestrais.

Olho-as, nada mais...

...um pouco mais confesso
Breves clarões sensuais
Que nem chegam a pensamentos,
São luzes, são vitrais,
Matizes de fantasiar.
Meu corpo percorrem
Ao som de um toque irreal
Ondas surreais e concêntricas
Emanam da luz, que assim
Se reflecte, na sua forma divinal.

(Lisboa, 2004)

domingo, 2 de agosto de 2009

O aroma do chá

Gotas puras de prazer
Lacrimejam do ouvido
Para o âmago do sentir meu
Na enebriante melodia
Da carícia de quente água
Sobre a alva porcelana.
Perco-me então
No voluptuoso movimento
Das folhas de caos,
Enquanto o aroma
...dança
Na base do meu olhar
Antecipando
...o sabor primeiro.
Sinto a transparência de gema
Da líquida jóia ancestral.


(Boston, 2001)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

À lupa

S
OU
UMA
LUPA
DEMI
MPR
ÓPR
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g
ot
eja
ndo
emplá
cidaca
ndura

reveloomaisprofundo
abismodesalojadodaminhasensibilidade ampliocomoumamágoaaliberdadedesentiroquedespontadaloucuradetermente

(Boston, 2002)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A tempestade

Recortada na alva neblina
Perscruto, suave e lânguido,
Sinais do sentimento perdido,
Algo... em teu olhar de felina.

Salgado e só, navego à bolina
Com o altivo mastro partido
Contra a dor do vento temido:
Tua indiferença de menina.

Irai, ó espumas de sofrimento
Pois minha quilha não vergará mais
Sonhai com ondas de sentimento

Montanhosas, danadas, animais,
Dilacerando o negro momento
Mágoa, olhos, líquido... e sais.

(Carcavelos, 2003)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O Sol por entre agulhas...

Viajando na tundra do teu regaço
Lamparina exangue do meu sentir
Autoria de imensa liberdade
Sinfónica e profunda alegria

Enganando o sonho de folia
Sentindo a maresia salgada
Pleno de sentido, som sumido
de magia antiga, ritualizada

Sinto-me o deus das coisas que vemos...

(Figueira da Foz, 2004)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A luminosidade do mar
Desperta-me, e alonga, em mim
Uma súbita percepção
De prata e retorcido latão.

Enferrujando por dentro
(oxidação de alma só...)
Perpetuo a limalha de pestanejar,
Absorvo a lágrima, escura e fria.

E na oblíqua luz me perco
Sem remédio e sem perdão.


(Carcavelos, 2003)

domingo, 5 de julho de 2009

Dói-me
O suave brilho da sua alma
Quando a sacra luz que emite
Não incide sobre mim.

Dóis-me
No eco das tuas palavras
Escoando
em crescente intensidade
(improvável eco exponencial)
Nas cavernas das minhas tempestades

Magoas-me
Com afiadas carícias,
Provindas do teu revolto ser
(Profundas, negras,... penetram-me)
Com o rebentar das ondas de variação
do teu corpo mulher

[Matas-me porque te adoro
E com esta morte, posso eu bem
Pois, como disse alguém
“O inferno... é já não amar”]

(Carcavelos, 2003)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

EMPALADO

Na dor de não te ver
Fito com olhos mortos
O ermo toque da tua ausência.
A minha essência escorre
Para o solo, negro,
Que absorve, lânguido e
Com absoluta indiferença.
Ouço, apenas, a tua lâmina
Cortando-me por dentro,
Recortando no meu ser
Labirintos de sofrimento.

Quero afagar-te, rosa, até que uma gota de rubi emoldure o meu gesto vão.


(Carcavelos, 2001)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Distante

Inclemente exílio
Que impõe essa vontade
Essa premente necessidade:

Nenhum outro povo tanto gosta
De gostar da sua terra
Que, de pronto, se desterra
Para, na distante tortura,
Chorar, beirando a loucura,
A saudade assim composta.

Boston, 2003