quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Crueldade

Arranhas me o coração
Com garras de nojo e fel
E sacodes o teu papel
Na minha ímpia degradação

Sou barro crivado de sal
Cujo toque chagas abre
Fio sangrento do meu sabre
Ardendo em espasmos de mal

Sei que mil vezes morrerei
P’ra teu doce travo sentir
Por seda, ferrões sofrerei

E, se das trevas não subir
Laços de dor enviarei
E a meu lado te ver cair

(Charneca de Caparica, 2009)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ferido na corda

Teus olhos de lago
São fios de lâmina
Trespassam o meu ser
Com frieza metal
Tuas lágrimas, doem
Ácidas, e corroem
O que sinto e sou
Matam o que desabrochou

Palavras de adeus
O olhar, distante
Cortam-me a vida
Como horrendo diamante.


(Charneca de Caparica, 2009)

domingo, 18 de outubro de 2009

Conversas não

No verde plano, envolto e só,
Observo a montanha, que acolá
Se ergue, alva e imensa,
E vejo a tua face, branca,
Mas não é a tua face, doce.
E olho para os teus olhos, verdes,
Mas não sinto o teu olhar, em mim.
E contemplo o teu peito, nu,
Mas vislumbro as tuas costas.
E miro os teus joelhos,
Mas são os teus calcanhares
Que lentamente te afastam...
...de mim.

Marejam-se-me os olhos de
Gravíticas gotas salgadas.
Ao explodirem no chão, verde,
...sempre verde.

Ouço o ribombar da tua voz:
"Não estou para conversas! Não!!"
O eco ressoa no plano,
O eco ressoa um ano.

E a montanha que eu via, acolá,
Ainda lá está… mas não está para mim.


(Lisboa, 2009)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Árvore sem folhagem, ouve o meu pedido,
De longo restolho fendido,
Imploro a tua sinceridade...

Humilde,

rastejo,

Na sublime sinceridade,
De um sobrolho de um velho
Face à candida, cruel, verdade.

Peço
o Mar sem anéis da lástima dourada,
Peço
o Ângulo sem papéis, sem a púdica amizade

Peço
o Grânulo de mim em calmarias desperto

Quero o sonho de, por fim, ter Ângulo e ter Mar... e que não me cravem unhas no peito aberto.



(Boston, 2004)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Devaneio rubro

Gáudio de vista
É o lembrar-te, Lira,
Trinando minh’alma
Em redemoinhos de mel

Orgiástica ventura
Libertária, suprema,
Tua mão, minha pena
Oh ausência dura e cruel

Suposição de loucura
Granada que, por amor,
Explode em águas profundas
No abismo frio e escuro
Onde monstros sanguinários
Vivem, sofrem, doem,
Morrem...
Sob os cascos fendidos das Fúrias
Sob as derrocadas, longas e despojadas,
De personas lúgubres e mirradas.

A altitude enjoa, agora.
Oh Corpo de Gigante Irado
Enebriado de sal e gemas
Jóias de luz esperançada,
Cor, símbolo de vida
Chaga de inconsciências aveludadas.
Oh, Vôo de ave cega e desdenhada.

(Lisboa, 2004)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

?Original

“Chove lá fora”
Como início de poema
Nada tem de original
Começando p’lo tema
Nada neste colabora
Para uma arte desigual

“São anjos que choram”
Assim o poeta diria
Eu, jamais fui tal
Lágrimas de maresia
Na minha face rolam
E a chuva não tem sal

“Anjos alvos que agora”
Anjo, conheço uma
É demónio por igual
Lembro-a na doce bruma
Onde mia paixão mora
Céu, inferno pessoal

“No meu coração moram”
Nada mais tem guarida
Que o meu sangue vital
Memórias tuas, querida
Belas, gloriosas, decoram
Todo o meu córtex cerebral


(Boston, 2001)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Contemplativo desespero

Estou só
Solto
Etéreo por sobre mim
Contemplo-me pesaroso

Contemplo-o

Liberto
Imaterial
Componho a massa lenta
De uma emergente empatia

Por ele... por mim

A Dor
Partilho
Ele revê-se na não-dor
Esta reprime com pudor

Vazio

Amorfa
Pesada
É esta empatia p’lo desespero
Emudecido, mas presente

Sinto-o

De fora
De mim
Revejo labirintos de
Mentira, de rubro sangue

Derramado

Tão só
Tão sua
Que lágrimas apenas escorrem
Na íntima face de dentro

Da alma


(Boston, 2002)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A minha dor

Lágrimas inconstantes
Humedecem a neblina
Que, como uma mão extremosa,
Afaga as lápides com os
Gélidos dedos da ausência
De Amor...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

?

Porque me sabes a maresia nocturna?
Acreditas no mistério?
Sentes os orgãos do amor em sinfonia?

A respostas não me submeto, pois a longa espera foi desabrochando em camadas, pétalas de néctares e manás (não mais serei o ontem ou o amanhã); vi o sol quebrado em mil pardais, chilreantes e travessos... levei o sonho ao fim do sal, em bandeiras abotoadas ao meu longo cabelo gutural.


(Caparica, 2005)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Hedonista, percorro
Os vales e campos do teu
Olhar
Alago-me em torrentes
Do teu doce e longo
Néctar,
Envolto na tua alva e quente
Paixão.
Do topo do monte Êxtase
Sobreponho a sinceridade
Da luz e cor de Nós
Num toque sem fronteiras,
Num mar sem barreiras,
No mais louco sonho... voar!

(Caparica, 2004)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O longe, agreste, sereno
Mar
A dor, celeste, amena
Voar
Morrer sem...
Ser, alguém,
sonhar...
Engano puro de paixão; que vida tudo permite?

Organizando o nada.............


(Carcavelos, 1999)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Lembrai os choupos azuis,
Orando ao vento.
Recordai os cavalos
Trotando orgulhosos
Sobre o mar bravio.
Sentí as carícias veladas
De uma brisa de estio
Libertai pombas de dor
Da superfície nua
Libertai-as por amor
E a arte será tua.

(Carcavelos, 2000)

sábado, 8 de agosto de 2009

Mãos

Fixo-as apenas
Não as metaforizo, não as canto
Não me perco em vãos poemas,
Em longos e tediosos temas,
Em colunas de alabastro
De sonho mármore cravadas,
Descobertas ou pintadas
Longas como cordas ancestrais.

Olho-as, nada mais...

...um pouco mais confesso
Breves clarões sensuais
Que nem chegam a pensamentos,
São luzes, são vitrais,
Matizes de fantasiar.
Meu corpo percorrem
Ao som de um toque irreal
Ondas surreais e concêntricas
Emanam da luz, que assim
Se reflecte, na sua forma divinal.

(Lisboa, 2004)

domingo, 2 de agosto de 2009

O aroma do chá

Gotas puras de prazer
Lacrimejam do ouvido
Para o âmago do sentir meu
Na enebriante melodia
Da carícia de quente água
Sobre a alva porcelana.
Perco-me então
No voluptuoso movimento
Das folhas de caos,
Enquanto o aroma
...dança
Na base do meu olhar
Antecipando
...o sabor primeiro.
Sinto a transparência de gema
Da líquida jóia ancestral.


(Boston, 2001)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

À lupa

S
OU
UMA
LUPA
DEMI
MPR
ÓPR
IO

g
ot
eja
ndo
emplá
cidaca
ndura

reveloomaisprofundo
abismodesalojadodaminhasensibilidade ampliocomoumamágoaaliberdadedesentiroquedespontadaloucuradetermente

(Boston, 2002)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A tempestade

Recortada na alva neblina
Perscruto, suave e lânguido,
Sinais do sentimento perdido,
Algo... em teu olhar de felina.

Salgado e só, navego à bolina
Com o altivo mastro partido
Contra a dor do vento temido:
Tua indiferença de menina.

Irai, ó espumas de sofrimento
Pois minha quilha não vergará mais
Sonhai com ondas de sentimento

Montanhosas, danadas, animais,
Dilacerando o negro momento
Mágoa, olhos, líquido... e sais.

(Carcavelos, 2003)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O Sol por entre agulhas...

Viajando na tundra do teu regaço
Lamparina exangue do meu sentir
Autoria de imensa liberdade
Sinfónica e profunda alegria

Enganando o sonho de folia
Sentindo a maresia salgada
Pleno de sentido, som sumido
de magia antiga, ritualizada

Sinto-me o deus das coisas que vemos...

(Figueira da Foz, 2004)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A luminosidade do mar
Desperta-me, e alonga, em mim
Uma súbita percepção
De prata e retorcido latão.

Enferrujando por dentro
(oxidação de alma só...)
Perpetuo a limalha de pestanejar,
Absorvo a lágrima, escura e fria.

E na oblíqua luz me perco
Sem remédio e sem perdão.


(Carcavelos, 2003)

domingo, 5 de julho de 2009

Dói-me
O suave brilho da sua alma
Quando a sacra luz que emite
Não incide sobre mim.

Dóis-me
No eco das tuas palavras
Escoando
em crescente intensidade
(improvável eco exponencial)
Nas cavernas das minhas tempestades

Magoas-me
Com afiadas carícias,
Provindas do teu revolto ser
(Profundas, negras,... penetram-me)
Com o rebentar das ondas de variação
do teu corpo mulher

[Matas-me porque te adoro
E com esta morte, posso eu bem
Pois, como disse alguém
“O inferno... é já não amar”]

(Carcavelos, 2003)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

EMPALADO

Na dor de não te ver
Fito com olhos mortos
O ermo toque da tua ausência.
A minha essência escorre
Para o solo, negro,
Que absorve, lânguido e
Com absoluta indiferença.
Ouço, apenas, a tua lâmina
Cortando-me por dentro,
Recortando no meu ser
Labirintos de sofrimento.

Quero afagar-te, rosa, até que uma gota de rubi emoldure o meu gesto vão.


(Carcavelos, 2001)