quarta-feira, 14 de julho de 2010

Litania

Eu sou a parte de mim que não sofre,
Eu sou a parte de mim que não dói,
A parte que não sente profundamente,
Que não ama o que outrora foi.

Eu não tenho consciência, neste lado,
Nenhum saber assola a minh’alma,
Alma pura de vazio e ignorância
É a que habita esta planície, calma...

Eu não me degrado em exéquias vãs,
Dos excessos bacanais me afasto,
Não ingiro etanólico líquido,
Levito sobre o vil metal que não gasto.

Eu, Sou, o Puro, o Santo, o São…
Que não teme, que não vê
Não sabe…
Inexistente negação…

(Julho, 2010)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Prece perdida

Oh, gárgulas da Memória
Protegei-me do amor
Sobre muros sem glória
Ventos uivando na dor
Dos heróis da História
Em seu último estertor.

Ventos uivando na dor
Silenciem as sereias
Pois traição e pavor
São de Eros as correias
Lançadas sem pudor
Aos que baixam as ameias.

São de Eros as correias
Quebradas por ti, solidão
Que agridoce, presenteias
Quem não tem perdão,
Com menos amargas ceias
Que ao comer invertido pão.

Lisboa, 2009

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Vi algas agora mesmo,
Primitivas e ondulantes,
No pesadelo irado do concreto.
Senti-as... mesmo agora, no pêlo eriçado
Por prazeres do não-senso;
Toques líquidos, amores pretensos.
Salgada na boca de seda

Vem a onda. Agora! Vem!

Feromona quimiotática
Atrai-me ao suspiro,
Soberano e bravio,
Como quem nem folgo tem
Para soprar o lento mar.

Charneca de Caparica, 2005

quinta-feira, 25 de março de 2010

(Morde-me agora! Porque não?)

Sinto-me pouco.
Estou de prata e de cetim
No quadro velho de uma igreja.

Cristo morto, viva nós!!

Ardem sentidos, ardem como uma lareira
Que aquece e dói, em brilhos lineares.
E fumos vagos em longas espirais
Redemoinham suaves, sem um bom fim.



(Charneca de Caparica, 2005)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Magnetismos sincopados
Campos de forças estriados
Cujas ondas me envolvem
Evoluindo em artifícios
De beleza episcopal.
As auras de cores impossíveis
Que me chamam em silêncio
Que me rasgam a prudência
De camadas educacionais,
Surgem de untuosas paradas
Móveis e longas, lastro central,
Apartando-me sem amizade
Sem amor, sem inanidade,
…sem sequer
Uma gota de doce mal.


(Charneca de Caparica, 2005)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Porque me sabes a maresia nocturna?
Acreditas no mistério?
Sentes os orgãos de amor em sintonia?

A respostas não me submeto, pois a longa espera foi desabrochando em camadas, pétalas de néctares e manás (não mais vou ser ontem ou amanhã); vi o sol quebrado em mil pardais, chilreantes e travessos... levei o sonho ao fim do sal, em bandeiras abotoadas ao meu longo cabelo gutural.


(Charneca de Caparica, 2005)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Vi crisântemos forenses
Rodeando estátuas de pó
De almas sós e nojentas
Em paz negra e amargurada,
Sobre espinhos sem luz nem sol.
Vi a chama da vela tardia
Que, neles, embriagava incauta.
Quais sonhos, qual folia?
Ultrapassar de dor e de alegria
De uma vida sem fito mor;
Morte sem algo maior
A rondar a esperança de se ver.
E ver é eterna mágoa
Sempre insanidade tentadora
Saber é foice debruada
Em rendas de orgulho com sabor
A alho podre,... podre e esmagado.



(Charneca de Caparica, 2005)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

Brilhante segundo
Luz do passado e do futuro
Do meu descontínuo temporal.
Relâmpago de soro velho
Goteja brilho e dor
No meu cerne de pavor.

O Medo é pecado pouco original.

(Charneca de Caparica, 2005)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Os montes são ondas pesadas
Que se imovem, sensuais
Na fragrância da pedra e da vida
Vegetal, cruel e... superacional.

(Charneca de Caparica, 2005)

sábado, 2 de janeiro de 2010

Hoje sou mácula adormecida
Viajando pelo meu centro.
Enrolo-me no vento-mar
E infecto o mundo-sonho.
Acho que me proponho
A ditador de papel
E queimo o ontem num balde
Feito de ilusão e política-fel.


(Charneca de Caparica, 2005)

domingo, 27 de dezembro de 2009

Tenho medo do céu primitivo
Temo as suas cúpulas de ouro
Que se dilaceram em farpas d’alma
Perfurando-me o âmago de ser
E a origem da minha vida irada.

Sonho mudo, em carreiras perdidas
Algures...
Entre a amizade e o pranto
Do mito do Esperanto
À inócua incompreensão universal.

Não supero o algo que me alimenta
Escoando no súber a negra oferenda
Que me tortura em lagos de prata
E me sonha como o nada que embala.


Charneca de Caparica, 2005

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Doce trindade

Os teus olhos são mel
Triplo mel que me envolve
Que em luz me devolve
O doce calor do prazer

Olhar-te é viver
Um sonho d’oiro puro
Sonhado no meu escuro
Vazio de negro fel

Íris de triplo anel
Magia onde me perco
Onde finalmente cerco
Um puro e pueril doce

Maior ainda fosse
O que nos separa,
Nada, nada se compara
Ao calor que ainda sinto

No altar onde não minto
És deusa do meu ser
Espírito do meu querer
Em sublime forma de mulher

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Lágrima dourada

Retinge-me, lânguida,
Oh, lágrima dourada.

Lágrima porque dóis
Na longa madrugada
Porque contaminas o prazer
Da suave independência
Com laivos de querer
E saudade sem clemência

Percorre-me a facies,
Oh, dourada lágrima.

Dourada porque bela
Sublime (Incomparável) obra prima
É esta forma de amar
Os teus lábios, tão ternos
Que te permitem beijar
Superando (mesmo os) mares eternos

(Boston,2003)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Fim

Na paisagem serena do fim
Um vento quente me envolve
Com aromas de nostalgias
E o sentir que se dissolve.

No pó do que outrora
Foi montanha sobranceira
Por Lavoisier e “Tao“
Consumida por inteira
Em erosão de mentiras
E traições, que neste ver
Se nivelam em brincadeira.

Agora a luz de anã
Nada aquece, mas ainda
Brilha, como eterna
Flama fria, que
Só se extinguirá
Cumprindo sua sina
Que a ceifeira levará.

E foi em ti que descobri
O que é sentir Amor
Sem literatura
Sem cobrança
Sem mesura a trinar
Sem esperança a alcançar.

domingo, 15 de novembro de 2009

O Olho

Como me trespassas de emoções,
Neste louco desvario sentido,
Que julgas serem fruto, ilusões,
De medo e perda de amor sofrido.

Embaídas, tens tuas opiniões.
Pois a causa do inane alarido
É a certeza de dois corações
Que emanam um sentir unido.

Sentir teu toque na noite quente
Roçando o beiral do abismo
Foi prova chorada e potente

De que comigo queres ficar
E, passando este longo sismo,
Um novo lindo amor terá lugar (?).


(Charneca de Caparica, 2009)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Crueldade

Arranhas me o coração
Com garras de nojo e fel
E sacodes o teu papel
Na minha ímpia degradação

Sou barro crivado de sal
Cujo toque chagas abre
Fio sangrento do meu sabre
Ardendo em espasmos de mal

Sei que mil vezes morrerei
P’ra teu doce travo sentir
Por seda, ferrões sofrerei

E, se das trevas não subir
Laços de dor enviarei
E a meu lado te ver cair

(Charneca de Caparica, 2009)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ferido na corda

Teus olhos de lago
São fios de lâmina
Trespassam o meu ser
Com frieza metal
Tuas lágrimas, doem
Ácidas, e corroem
O que sinto e sou
Matam o que desabrochou

Palavras de adeus
O olhar, distante
Cortam-me a vida
Como horrendo diamante.


(Charneca de Caparica, 2009)

domingo, 18 de outubro de 2009

Conversas não

No verde plano, envolto e só,
Observo a montanha, que acolá
Se ergue, alva e imensa,
E vejo a tua face, branca,
Mas não é a tua face, doce.
E olho para os teus olhos, verdes,
Mas não sinto o teu olhar, em mim.
E contemplo o teu peito, nu,
Mas vislumbro as tuas costas.
E miro os teus joelhos,
Mas são os teus calcanhares
Que lentamente te afastam...
...de mim.

Marejam-se-me os olhos de
Gravíticas gotas salgadas.
Ao explodirem no chão, verde,
...sempre verde.

Ouço o ribombar da tua voz:
"Não estou para conversas! Não!!"
O eco ressoa no plano,
O eco ressoa um ano.

E a montanha que eu via, acolá,
Ainda lá está… mas não está para mim.


(Lisboa, 2009)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Árvore sem folhagem, ouve o meu pedido,
De longo restolho fendido,
Imploro a tua sinceridade...

Humilde,

rastejo,

Na sublime sinceridade,
De um sobrolho de um velho
Face à candida, cruel, verdade.

Peço
o Mar sem anéis da lástima dourada,
Peço
o Ângulo sem papéis, sem a púdica amizade

Peço
o Grânulo de mim em calmarias desperto

Quero o sonho de, por fim, ter Ângulo e ter Mar... e que não me cravem unhas no peito aberto.



(Boston, 2004)